A doação do autódromo

A questão do autódromo e automobilismo já eram águas passadas e nem sequer pensava mais em me envolver. Pensava, sim, em fazer um livro no futuro contando a verdadeira história do autódromo, quando, em 2008, o pessoal da S.A. me procurou e começamos a conversar (em 2006, André Costi, Danilo Scanagatta e Side Simonato já tinham solicitado a minha participação). Inúmeras tentativas por parte de três prefeitos já haviam sido feitas no sentido de desapropriar o autódromo. Nenhuma teve êxito. Eles acreditavam que, por eu ter sido piloto, transitado no autódromo por muito tempo e ter várias amizades lá dentro, seria bem sucedido em ajeitar as coisas. Em 2009, acabei assumindo a diretoria comercial da entidade e voltei a frequentar o autódromo. Por anos, as duas casas falavam línguas diferentes, a S.A acreditava que o A.C. usufruia da sua estrutura para realizar corridas e lucrar. O A.C., por conta das mentiras criadas lá em 1973 pela prefeitura, acreditava que os acionistas da S.A. eram os vilões. Eles passaram a ser considerados os inimigos do autódromo.

Por isso, demorei para conseguir demonstrar que meu interesse era resolver o impasse da S.A. sem acabar com as corridas. Aos poucos, fui quebrando o gelo, comecei a ajudar e os convenci de que tínhamos a última chance de salvar o autódromo. Entenderam que, para dar certo, eu teria de assumir também o Automóvel Clube, pois estando em mãos erradas, tudo daria errado, e não eram poucas as pessoas que queriam que não desse certo. Eu nunca havia pesando naquela ideia e nunca quis. Acabamos fazendo uma chapa, ganhamos a eleição. No dia 8 de maio de 2009 assumimos a presidência o ACC e as coisas começaram a acontecer. É importante frisar que sem a atuação de Ivanir “Dinho” Tasca nada teria acontecido. Ele aguentou o rojão por meses praticamente sozinho. Depois de mais de 30 anos, as duas casas tinham uma pessoa em comum. Logo, porém, me vi diante de uma situação bem difícil, pois o autódromo podia ter seu fim nas minhas mãos e eu carregaria esta pecha pelo resto da vida. Estava sob minha responsabilidade a promoção das corridas e bancar as contas da S.A. e do Automóvel Clube. Quem esteve à frente do A.C.C. sabe muito bem que, ao contrário do que alguns imaginam, aquilo só dava prejuízo. Era nítida, porém, a necessidade de uma reforma total para viabilizar o complexo. Embora eu abra um parêntese aqui para dizer que a estrutura de boxes, sim, estava insustentável; mas se falando da pista, confesso que talvez não fosse tão necessário o alargamento (vide Nürburgring); aquilo, sim, era um desafio, principalmente o curvão, que ficou “fácil” hoje em dia. Faltam raízes no nosso automobilismo. A S.A. já tinha tomado a decisão de não aceitar mais aquela situação e queria vender a área, o que acabaria com o autódromo, mas alguns não queriam deixar se perder o legado que haviam construído, por isso mesmo acreditavam que eu seria o último cartucho, um elo que faltava naquela corrente. Por se tratar de um bem de propriedade particular, a área não podia receber investimentos com dinheiro público.

Depois de três anos de trabalho, e com os números do A.C. agora abertos para a S.A., ficou claro para todos que ninguém ganhava e a coisa toda iria acabar. Eu estava esgotado. Continuar naquela situação seria enxugar gelo. Ou mudava ou eu sairia, e o autódromo acabava como praça automobilística. Foi aí que sugeri à S.A. a doação da área para o município. Doaríamos 40 alqueires para o município sem que este arcasse sequer com um centavo e ficaríamos com a frente, as margens da BR para lotear, vender e distribuir os lucros entre os acionistas. Isso se efetivou em 2010, sob três condições: manter o autódromo com o nome de Zilmar Beux; devolver já transformados em área urbana 3,5 alqueires (três e meio alqueires) da área recém-doada para os sócios da S.A. (os proprietários legítimos da área de 40 alqueires); e, por fim, manter a área para fins do esporte motor.

Resumindo: doamos 40 alqueires e a prefeitura desmembrou e nos devolveu 3,5 alqueires da própria área objeto da doação às margens da BR 277. Antes da efetivação desse acordo fui sabatinado em uma sessão da Câmara de Vereadores durante três horas e esclareci todas as dúvidas. Essa doação não envolveu dinheiro algum. A Câmara aprovou por unanimidade a doação com os três encargos. Todos ganhariam. Os acionistas teriam dividendos para receber com a venda dos terrenos, a S.A. encerraria suas ativida des como empresa e liberaria a diretoria dos compromissos não remunerados com a mesma. O município receberia sem gastar nenhum centavo o autódromo que, por anos, tentou desapropriar a um alto custo, e, sendo então uma área pública, poderia receber e colocar dinheiro público para a sua reforma. Fato curioso sobre a área: eu mantinha um ótimo relacionamento com as polícias Militar e Rodoviária e, com frequência, cedia o autódromo para treinamentos. Numa destas ocasiões, em que cedemos para as Forças Armadas, a Aeronáutica realizou treinamentos com helicópteros Cougar. Conversando com o comandante, fui surpreendido pela minha total falta de percepção sobre algo interessantíssimo. Ele disse: “Você nunca percebeu que isso aqui é uma base aérea e, em linha reta, estamos a 100 km da fronteira? Temos aqui duas pistas de pouso e decolagem, uma torre de comando e nascente d’água”. A prefeitura alardeou a devolução dos 3,5 alqueires como se fosse uma área dela, que havia dado uma contrapartida. Mentiu sobre a DEVOLUÇÃO, transformando-a em doação por parte da prefeitura. Este item do acordo deu margem para má interpretação, sugerindo que houve ganho financeiro. E não houve. Nós apenas doamos ao município 36,5 alqueires e não tivemos um centavo de lucro, conforme documento lavrado em cartório no dia 25 de julho de 2011. A partir dessa data, o município passou a ter a propriedade da área, atualmente com estimativa de avaliação no valor de R$ 35 milhões. Tenho plena convicção de que, diante das circunstâncias, meu pai também optaria pela doação, pois nunca teve interesse financeiro. Havia dentro da própria S.A pessoas interessadas em comprar a área para especulação financeira, mas isso resultaria na morte do autódromo. Poderíamos ter optado por este caminho muito mais prático do ponto de vista financeiro, pois era só vender, distribuir os lucros e entregar a área. Para salvar o autódromo, optamos pelo caminho mais penoso.

Três coisas não podem ser escondidas por muito tempo: o sol, a lua e a verdade!